Dia Internacional da Tradução. International Translation Day

30 de setembro de 2010 § 1 comentário

Instituído pela Federação Internacional de Tradutores, o Dia Internacional da Tradução é celebrado desde 1953. Dia de São Jerônimo.

Um “desejo de aniversário”? Dentro deste pequeno universo de quem exerce e ama a tradução como ofício: que ela fosse mais valorizada, que os profissionais que a praticam se tornassem mais cientes deste valor.
Traduzir é um desdobramento do escrever, não o seu primo pobre. Muitos tradutores, independentemente de utilizarem ou não ferramentas eletrônicas, aceitam a instituição não formalizada de que quanto maior o trabalho, menor é o seu valor – em geral, quanto maior o texto, menor é o preço pago por palavra traduzida. Na maioria dos casos, portanto, quanto mais trabalhamos, menos recebemos. Traduções são compradas a preço de atacado, como se não exigissem atenção, precisão, contextualização e conhecimento; como se traduzir fosse apenas uma atividade automática, uma consulta a glossários e dicionários.
No mundo global dos negócios, tradução e localização são ferramentas essenciais em estratégias de comunicação, mas um aumento no uso de ferramentas CAT, mais a terceirização e agenciamento de serviços, entre outros fatores, nem sempre lhe atribuem a remuneração merecida e apropriada. Nesses casos, o tradutor é um operário anônimo na linha de produção, o mérito e os lucros do seu trabalho indo muitas vezes parar nas mãos de intermediários.
Uma mudança dessa dinâmica de negócios – tanto da parte de quem contrata os serviços, como da de quem os oferece – seria muito bem-vinda. Ganham os tradutores, os contratantes e, também, as traduções.

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Wabi-Sabi. O outono chegou.

29 de setembro de 2010 § 3 Comentários

Pared down to its barest essence, wabi-sabi is the Japanese art of finding beauty in imperfection and profundity in nature, of accepting the natural cycle of growth, decay, and death. It’s simple, slow, and uncluttered-and it reveres authenticity above all. Wabi-sabi is flea markets, not warehouse stores; aged wood, not Pergo; rice paper, not glass. It celebrates cracks and crevices and all the other marks that time, weather, and loving use leave behind. It reminds us that we are all but transient beings on this planet-that our bodies as well as the material world around us are in the process of returning to the dust from which we came. Through wabi-sabi, we learn to embrace liver spots, rust, and frayed edges, and the march of time they represent.
(O texto a que pertence este excerto introdutório está aqui.)

Entre cidades, à cúspide de uma estação. Saímos, era verão; retornamos ao outono, a estação da impermanência, dos lutos da natureza, que se prepara para o sono do qual desperta no próximo equinócio.

(Images taken at the Ashridge Estate, Buckinghamshire, United Kingdom: © Daniela Pires, All Rights Reserved; Fotografias tiradas em Ashridge Estate, Buckinghamshire, Reino Unido, © Daniela Pires, Todos os direitos reservados)

Férias. Too much Happiness.

15 de setembro de 2010 § 2 Comentários

Uma semana de férias, numa cidade que não conheço, numa região que reúne tantos atrativos que seria cliché mencioná-los.
Longe do computador, numa realidade mais imediata e, paradoxalmente, remota. Escutando uma das mais belas línguas, que escapa ao meu domínio. Em trânsito.
Como companhia:

Foi difícil resistir à tentação de começá-lo.
Seus contos, narrativas simples, realidades aparentemente comuns, costuradas por sentimentos complexos – como quase sempre os sentimentos são.
Mesmo contextualizadas em cidades pequenas, num país cuja cultura é pouco difundida, as histórias de Alice Munro (1931- ) são inegavelmente universais, pontuadas por epifanias – aquelas que contam algo que já pressentíamos, e que chegam embebidas em silêncio, numa necessidade sagaz de nada dizer.

Alice Munro em português (datas de publicação dos originais em inglês):

(Brasil)
Felicidade Demais (2009)
Fugitiva (2004)
Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (2001)

(Portugal)
A Vista de Castle Rock (2006)
Fugas (2004)*
O Amor de Uma Boa Mulher (1998)

*Fugitiva e Fugas são, obviamente, o mesmo livro (Runaway), nas suas versões brasileira e portuguesa, respectivamente.

13 de setembro de 2010 § 5 Comentários

books at the southbank, london

Algumas coisas que os livros digitais virtualizam ou aniquilam:

Os marca-livros.
Os sublinhados a as anotações de desconhecidos.
O empréstimo de livros entre amigos.
As estantes repletas de conhecimento.
Os autógrafos do(a) autor(a) à caneta.
As dedicatórias de quem nos presenteia com livros.
As páginas que amarelam, perfumadas de tempo.

Há a esperança, porém, de que haverá mais sebos. E o retorno das livrarias independentes. As bibliotecas, as que sobreviverem, serão ainda mais sagradas.

Is our relationship with books changing: do we consume words the way we used to?

Poetisa em auto-exílio

12 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

Elizabeth Bishop (1911-1979), expoente da poesia ocidental do século XX, nasceu norte-americana, mas foi ser temporariamente feliz no Brasil, onde produziu grande parte da sua obra.
O A-Z do auto-exílio tropical de Bishop, publicado no caderno Review do The Guardian, ontem.

Elizabeth Bishop – “Question of travel”

There are too many waterfalls here; the crowded streams
hurry too rapidly down to the sea,
and the pressure of so many clouds on the mountaintops
makes them spill over the sides in soft slow-motion,
turning to waterfalls under our very eyes.
–For if those streaks, those mile-long, shiny, tearstains,
aren’t waterfalls yet,
in a quick age or so, as ages go here,
they probably will be.
But if the streams and clouds keep travelling, travelling,
the mountains look like the hulls of capsized ships,
slime-hung and barnacled.

Think of the long trip home.
Should we have stayed at home and thought of here?
Where should we be today?
Is it right to be watching strangers in a play
in this strangest of theatres?
What childishness is it that while there’s a breath of life
in our bodies, we are determined to rush
to see the sun the other way around?
The tiniest green hummingbird in the world?
To stare at some inexplicable old stonework,
inexplicable and impenetrable,
at any view,
instantly seen and always, always delightful?
Oh, must we dream our dreams
and have them, too?
And have we room
for one more folded sunset, still quite warm?

But surely it would have been a pity
not to have seen the trees along this road,
really exaggerated in their beauty,
not to have seen them gesturing
like noble pantomimists, robed in pink.
–Not to have had to stop for gas and heard
the sad, two-noted, wooden tune
of disparate wooden clogs
carelessly clacking over
a grease-stained filling-station floor.
(In another country the clogs would all be tested.
Each pair there would have identical pitch.)
–A pity not to have heard
the other, less primitive music of the fat brown bird
who sings above the broken gasoline pump
in a bamboo church of Jesuit baroque:
three towers, five silver crosses.
–Yes, a pity not to have pondered,
blurr’dly and inconclusively,
on what connection can exist for centuries
between the crudest wooden footwear
and, careful and finicky,
the whittled fantasies of wooden footwear
and, careful and finicky,
the whittled fantasies of wooden cages.
–Never to have studied history in
the weak calligraphy of songbirds’ cages.
–And never to have had to listen to rain
so much like politicians’ speeches:
two hours of unrelenting oratory
and then a sudden golden silence
in which the traveller takes a notebook, writes:

“Is it lack of imagination that makes us come
to imagined places, not just stay at home?
Or could Pascal have been not entirely right
about just sitting quietly in one’s room?

Continent, city, country, society:
the choice is never wide and never free.
And here, or there . . . No. Should we have stayed at home,
wherever that may be?”

O futuro da leitura – algumas questões.

10 de setembro de 2010 § 1 comentário

(Reflexão inspirada neste artigo.)

Muito tem se falado sobre o fim dos jornais e livros impressos – uma morte anunciada que, às vezes, parece ser discutida com uma espécie de sadismo. Como se todos quisessem ser testemunhas desse paradigma tecnológico, ao mesmo tempo que lamentam “o final de uma era” – de várias, para sermos mais exatos.
A evolução tecnológica nunca foi tão veloz, fazendo com que os consumidores, como alguém apontou, sofram de uma espécie de gadgetite aguda, que vivam ansiando pelo próximo telefone, pela próxima câmera fotográfica, pelo próximo computador, como se disso dependessem as suas vidas, a sua capacidade de integração aos círculos sociais. As filas em frente às Apple stores falam por si. E, sejamos sinceros, o índice de variação de desempenho em tais máquinas é bastante insignificante, ao menos de modelo a modelo, cujos intervalos de lançamento têm se tornado cada vez mais curtos – mas mesmo assim, queremos o novo. Queremos porque queremos e ninguém questiona, porque a disponibilidade é tanta que influencia a demanda e a procura, e não o contrário. Os aplicativos dos celulares, então, fazem coisas por nós que jamais imaginaríamos – como, por exemplo, personalizar os nossos pares de tênis. Como conseguíamos viver sem isso antes? O incrível é que conseguíamos.
Apesar da frequência com que temos visto artigos discutindo os avanços tecnológicos das mídias, vamos chamá-las assim, populares, explicando como o funcionamento do cérebro humano se tornou mais complexo devido aos gadgets e ao Google, a verdade é que a essência do discurso, tanto quanto a do comportamento, das massas não parece ter mudado tanto assim. Paradoxalmente a todo esse progresso, questiona-se a capacidade atual do nosso interesse por textos longos e conteúdos informativos que requeiram processos mais sofisticados de raciocínio. Ou seja, da nossa capacidade de ler e interpretar um texto. De nos dedicarmos à leitura e exclusivamente a ela. De aprendermos.
Sempre haverá intelectuais, estudiosos, acadêmicos, não há o que ser questionado. Mas como a “inclusão digital” pode proporcionalmente aumentar os níveis de alfabetismo, e incitar o prazer pela literatura, num país como o Brasil, por exemplo, onde a escola é vista por alguns como uma instituição falida, e onde há uma cultura social totalmente voltada à aparência e ao consumo? E, com exceção de certos países asiáticos, onde os preços dos gadgets são muito mais acessíveis, qual é o cenário geográfico dessa dominância total dos mesmos como meios de comunicação nos países considerados subdesenvolvidos ou emergentes? Quem consegue vislumbrar um futuro onde todos terão um Kindle ou um iPad e, ao mesmo tempo, sejam leitores ávidos de livros e de notícias? E uma vez que a pirataria das obras chegue aos níveis alcançados pela indústria fonográfica, quem serão os escritores de prestígio, o que será das editoras? Que mudanças estruturais, estilísticas ocorrerão na narrativa literária? Quem apostará a sobrevivência numa humilde – pois os que lucram com os best-sellers são poucos – carreira literária? Enfim, o que acontecerá à literatura e – o principal – seremos mesmo mais inteligentes, cultos e interessantes? As pessoas lerão mais? São os livros digitais mais ecologicamente viáveis, levando em conta a febre pela próxima versão de tudo, o que inclui os e-readers? Todos esses são questionamentos válidos, não apenas perguntas retóricas.
Não deixa de haver um certo elitismo, portanto, nas declarações dos arautos do fim das livrarias e das bancas de jornais – o alcance da revolução digital e os benefícios por ela criados ainda implicam muitos pontos de interrogação. Há-de se questionar a proposta de tal revolução, a ideologia em seu cerne, o impacto que terá na sociedade, na mídia e na literatura, e nas indústrias que viabilizam as duas últimas. A impressão que paira no ar é que, como com todo o resto, estamos mais preocupados com a forma e os lucros, com a novidade, do que com o conteúdo e as consequências da mudança. Como dizem alguns, evolução nem sempre significa progresso.

Tradução & Transcriação

9 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

“A translator, therefore, is a rewriter who determines the implied meanings of the TL[target language] text, and who also, the act of rewriting, redetermines the meaning of the original.” (Álvarez e Vidal quoted in: Boase-Beier & Holman, The Practices of Literary Translation: Constraints and Creativity)

“A relação entre escrita criativa e tradução pode ser explorada com excelentes resultados. Com efeito, encorajar os estudantes de tradução literária a desenvolver o seu próprio estilo e a encontrar por si mesmos soluções inovadoras é factor de interesse e sucesso acrescido. A criatividade individual e a autoconfiança apoiam-se na compreensão intuitiva dos limites, não da interpretação (para citar Umberto Eco), mas da própria tradução. Essa intuição dificilmente será ensinada, contudo pode ser guiada e fundamentada na atenta leitura e análise do texto original. Daqui se depreende a essencial complementaridade interdisciplinar entre o ensino e a aprendizagem da tradução literária e o ensino e a aprendizagem das diversas literaturas, culturas, estilísticas e retóricas.”

(Clara Sarmento, neste blog, que já não é atualizado há alguns anos)

“I am a little uneasy about claiming Isolation as my own writing, but Dr. Westerman, doing one of her hurrying, over-the head gestures, insisted that translation, especially of poetry, is a creative act. Writing and translation are convivial, she said, not oppositional, and not at all hierarchal.”
(Shields, Carol (1935-2003). In: Unless)

Um artigo sobre transcriação, aqui.

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