O futuro da leitura – algumas questões.

10 de setembro de 2010 § 1 comentário

(Reflexão inspirada neste artigo.)

Muito tem se falado sobre o fim dos jornais e livros impressos – uma morte anunciada que, às vezes, parece ser discutida com uma espécie de sadismo. Como se todos quisessem ser testemunhas desse paradigma tecnológico, ao mesmo tempo que lamentam “o final de uma era” – de várias, para sermos mais exatos.
A evolução tecnológica nunca foi tão veloz, fazendo com que os consumidores, como alguém apontou, sofram de uma espécie de gadgetite aguda, que vivam ansiando pelo próximo telefone, pela próxima câmera fotográfica, pelo próximo computador, como se disso dependessem as suas vidas, a sua capacidade de integração aos círculos sociais. As filas em frente às Apple stores falam por si. E, sejamos sinceros, o índice de variação de desempenho em tais máquinas é bastante insignificante, ao menos de modelo a modelo, cujos intervalos de lançamento têm se tornado cada vez mais curtos – mas mesmo assim, queremos o novo. Queremos porque queremos e ninguém questiona, porque a disponibilidade é tanta que influencia a demanda e a procura, e não o contrário. Os aplicativos dos celulares, então, fazem coisas por nós que jamais imaginaríamos – como, por exemplo, personalizar os nossos pares de tênis. Como conseguíamos viver sem isso antes? O incrível é que conseguíamos.
Apesar da frequência com que temos visto artigos discutindo os avanços tecnológicos das mídias, vamos chamá-las assim, populares, explicando como o funcionamento do cérebro humano se tornou mais complexo devido aos gadgets e ao Google, a verdade é que a essência do discurso, tanto quanto a do comportamento, das massas não parece ter mudado tanto assim. Paradoxalmente a todo esse progresso, questiona-se a capacidade atual do nosso interesse por textos longos e conteúdos informativos que requeiram processos mais sofisticados de raciocínio. Ou seja, da nossa capacidade de ler e interpretar um texto. De nos dedicarmos à leitura e exclusivamente a ela. De aprendermos.
Sempre haverá intelectuais, estudiosos, acadêmicos, não há o que ser questionado. Mas como a “inclusão digital” pode proporcionalmente aumentar os níveis de alfabetismo, e incitar o prazer pela literatura, num país como o Brasil, por exemplo, onde a escola é vista por alguns como uma instituição falida, e onde há uma cultura social totalmente voltada à aparência e ao consumo? E, com exceção de certos países asiáticos, onde os preços dos gadgets são muito mais acessíveis, qual é o cenário geográfico dessa dominância total dos mesmos como meios de comunicação nos países considerados subdesenvolvidos ou emergentes? Quem consegue vislumbrar um futuro onde todos terão um Kindle ou um iPad e, ao mesmo tempo, sejam leitores ávidos de livros e de notícias? E uma vez que a pirataria das obras chegue aos níveis alcançados pela indústria fonográfica, quem serão os escritores de prestígio, o que será das editoras? Que mudanças estruturais, estilísticas ocorrerão na narrativa literária? Quem apostará a sobrevivência numa humilde – pois os que lucram com os best-sellers são poucos – carreira literária? Enfim, o que acontecerá à literatura e – o principal – seremos mesmo mais inteligentes, cultos e interessantes? As pessoas lerão mais? São os livros digitais mais ecologicamente viáveis, levando em conta a febre pela próxima versão de tudo, o que inclui os e-readers? Todos esses são questionamentos válidos, não apenas perguntas retóricas.
Não deixa de haver um certo elitismo, portanto, nas declarações dos arautos do fim das livrarias e das bancas de jornais – o alcance da revolução digital e os benefícios por ela criados ainda implicam muitos pontos de interrogação. Há-de se questionar a proposta de tal revolução, a ideologia em seu cerne, o impacto que terá na sociedade, na mídia e na literatura, e nas indústrias que viabilizam as duas últimas. A impressão que paira no ar é que, como com todo o resto, estamos mais preocupados com a forma e os lucros, com a novidade, do que com o conteúdo e as consequências da mudança. Como dizem alguns, evolução nem sempre significa progresso.

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