Londres

19 de novembro de 2010 § 6 Comentários


Há uma arrogância comum a nós que somos crias das grandes cidades; uma petulância inata que nos faz reagir com sarcasmo diante do atraso do transporte público, a retribuir o empurra-empurra da multidão, a olhar feio para o lado. Há, também, em nós, aquela arrogância dos caminhos percorridos, a sabedoria das ruas, dos números dos ônibus, das conexões, dos atalhos.
Atitudes autômatas de sobrevivência, que vivem ao abismo da indiferença.
Uma postura quase selvagem, pois afinal, estamos na selva. Mas como a selva é linda em sua imprevisibilidade, nos seus contrastes e clichés, nas suas incongruências.
Para mim, está para existir mito maior do que o da solidão nas grandes cidades. A solidão não escolhe latitude: tem muito mais a ver com a dialética do acaso e das escolhas do que com a quantidade de concreto à nossa volta. A solidão das cidades grandes é acompanhada, é poética, é relativa – mesmo sozinhos, somos testemunhas da vida que acontece o tempo todo, e trocamos olhares de reconhecimento.

Ruskin Park, or the memory lane

5 de novembro de 2010 § 1 comentário

Domingo, fui parar no Ruskin Park. Esse parquinho de certa forma modesto em dimensões, mas belíssimo. No início da minha jornada londrina, era onde eu ia meditar diante do lago infestado de patos e ratos, em tardes de solidão desoladora. Tirar fotos de esquilos. Mais tarde, tornou-se parada obrigatória nas tardes mornas na primavera e no verão, no caminho – a pé – de volta do trabalho. Eu tinha uma árvore que gostava de chamar de minha, ao pé da qual sentava-me e lia.
O Ruskin Park tem histórias. Uma delas inclui uma sessão de fotos do Pink Floyd em 1967, era Syd Barrett. Barrett estudou na faculdade onde trabalhei por dois anos. O perímetro da minha antiga vizinhança é um universo particular, um baú de referências.

Ao tentar abrir um dos portões que dá acesso a uma das áreas do parque, fui detida por um rapaz com a filhinha nos ombros. Francês. Foi para a esquerda e abriu um outro, que eu não tinha visto, pois era mais baixo e confundia-se com a grade. Sorrindo, disse:

– Mas por que o portão errado? É tão mais fácil por aqui – apontando. – Por que complicar as coisas? Não entendo.

E saiu caminhando. Verdadeiramente estupefato, mas sorrindo.

Onde estou?

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