Londres

19 de novembro de 2010 § 6 Comentários

 


Há uma arrogância comum a nós que somos crias das grandes cidades; uma petulância inata que nos faz reagir com sarcasmo diante do atraso do transporte público, a retribuir o empurra-empurra da multidão, a olhar feio para o lado. Há, também, em nós, aquela arrogância dos caminhos percorridos, a sabedoria das ruas, dos números dos ônibus, das conexões, dos atalhos.
Atitudes autômatas de sobrevivência, que vivem ao abismo da indiferença.
Uma postura quase selvagem, pois, afinal, estamos na selva. Mas como a selva é linda em sua imprevisibilidade, nos seus contrastes e clichês, nas suas incongruências.
Para mim, está para existir mito maior do que o da solidão nas grandes cidades. A solidão não escolhe latitude: tem muito mais a ver com a dialética entre o acaso e as escolhas do que com a quantidade de concreto à nossa volta. A solidão das cidades grandes é acompanhada, é poética, é relativa – mesmo sozinhos, somos testemunhas da vida que acontece o tempo todo, e trocamos olhares de reconhecimento.

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§ 6 Respostas para Londres

  • Silvares disse:

    Não há solidão mais acompanhada que viver em manada. Por vezes sinto-me bem entre a multidão, noutras ocasiões fico ansioso. Mas já compreendi que a diferença de sensações não está fora de mim. Na maior parte das vezes o problema, quando as coisas me incomodam, está dentro, sou eu. Os outros são apenas eles próprios.
    🙂

  • Isabel disse:

    Dani, amei o texto. E aquele pombinho encolhido junto ao rio 🙂
    Adoro caminhar pelo meio da multidão de desconhecidos. Sinto que pertenço. Pertenço ali, à cidade, à multidão, à confusão.
    Gosto muito do campo, adoro o contacto com a natureza, preciso dele para me manter sã, mas eu sou um bicho da cidade, só aqui consigo viver.
    Bjs

  • Daniela Pires disse:

    Sim, Silvares, muito do que percebemos fora vem do que sentimos dentro. São as nossas emoções a colorir as lentes com que enxergamos o mundo 🙂

    Pois, Isabel. Eu sou “bipolar” nesse sentido – amo os dois, sinto a falta de um quando estou no outro, portanto deixei de tentar resolver essa dicotomia, e resolvi aceitar que as duas coisas fazem parte de mim – isto se aplica também às 3 culturas em que vivi. Acho que por isso gosto tanto do Porto, pois é onde o conflito cessa momentaneamente – estou numa cidade vibrante, mas tenho a natureza ali perto. Vocês aí em Lisboa também possuem o mesmo privilégio. Bjs,

  • marsonoro disse:

    penso que, sim, a solidão seja talvez intrínseca ao ser humano… mas que nas grandes cidades ela se desdobra em mais neuroses, ah, isso sim 🙂

  • marsonoro disse:

    cara daniela, eu nasci no interior, sei bem do que se trata… rs… ai, ai, cada um com suas neuroses, e ainda tendo que conviver com as neuroses dos outros!

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