Num quarto estranho

19 de janeiro de 2011 § Deixe um comentário

Num quarto estranho, você tem de se esvaziar antes de dormir. E, antes de ficar vazio para dormir, o que é você? E quando se esvazia para dormir, você não é. E quando está preenchido pelo sono, nunca foi.” (tradução livre)

In a Strange Room, de Damon Galgut (autor de O Bom Médico, publicado no Brasil pela Companhia das Letras) é uma narrativa ontológica sobre encontros, deslocamentos e alteridades. Três relatos de viagem que se alternam entre a terceira e a primeira pessoa, em que o viajante assume três papéis distintos (as três novellas em que se divide a obra): o Seguidor, o Amante e o Guardião.
No livro, estar em trânsito nem sempre indica um estado de suspensão da realidade – a viagem é a realidade, a casa, onde tudo se transforma sem se chegar a lugar algum. O deslocamento pode ser cartático; um quarto estranho, a constante – tornamo-nos o caminho? Deixamos parte do que somos para trás, em lugares que ignoram e desintegram os nossos vestígios?
Entrou para a minha lista de livros favoritos, adoraria traduzi-lo.

São Paulo

7 de janeiro de 2011 § 4 Comentários


(© Daniela Pires, All Rights Reserved; © Daniela Pires, Todos os direitos reservados)

“Ele deixa a estação e fica no meio da multidão em movimento, tentando pensar. Estou em casa agora, vim para casa. Mas sente que está apenas de passagem.” (In a Strange Room, Damon Galgut. Tradução livre)

É curiosa a articulação entre o lugar interno e o externo, e como ela muda de acordo com o instante e o estado de deslocamento – “em casa”, em trânsito, a trabalho, de visita, de férias.
Cada vez que retorno a São Paulo, tenho uma experiência diferente. A troca com as pessoas é sempre a mesma, intensa no seu melhor e no seu pior, afinal, é uma tentativa vã de recuperar anos em algumas semanas.
Mas a relação com a cidade nunca se repete. E raramente corresponde às expectativas. Dessa vez, por exemplo, esperava alguma espécie de chamado, um sentimento de encaixe na paisagem. Mas não foi o que aconteceu.
Os interstícios entre os encontros e as tarefas foram dolorosos, lembrava-me mais da cidade que amo e decidi abandonar do que daquela que achei que visitaria. Não houve incidentes, supresas – simplesmente um desacordo entre o que sou neste exato momento (e isto pode bem mudar) e o que ela poderia me proporcionar. Fiquei a me imaginar ali, sem a natureza ao alcance da mão, pulando as cascatas que se formam nas sarjetas e os buracos nas calçadas íngremes, sacolejando em ônibus altos que só são confortáveis para os mais jovens e saudáveis, vivendo numa sociedade quase semi-escravocrata, em que as pessoas falam paradoxal e constantemente de ingestão de calorias e silhuetas perfeitas; assistindo à televisão aberta que, salvo um único canal, só oferece alienação após alienação e violência e fascismo corporal; tendo de escutar o “fica com Deus” bem-intencionado, mas que tenho vontade de refutar e questionar. Entre tantas outras coisas.
Fiquei a me imaginar retomando a vida que era feliz em tantos aspectos, mas que me trouxe ao exílio porque me fazia sentir numa bolha e reclamar do que eu mesma não tinha a coragem de mudar.
A visita foi, enfim, boa. Mas, ironicamente, não via a hora de voltar para casa. E esta era a última coisa que eu imaginava.

Onde estou?

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