São Paulo

7 de janeiro de 2011 § 4 Comentários


(© Daniela Pires, All Rights Reserved; © Daniela Pires, Todos os direitos reservados)

“Ele deixa a estação e fica no meio da multidão em movimento, tentando pensar. Estou em casa agora, vim para casa. Mas sente que está apenas de passagem.” (In a Strange Room, Damon Galgut. Tradução livre)

É curiosa a articulação entre o lugar interno e o externo, e como ela muda de acordo com o instante e o estado de deslocamento – “em casa”, em trânsito, a trabalho, de visita, de férias.
Cada vez que retorno a São Paulo, tenho uma experiência diferente. A troca com as pessoas é sempre a mesma, intensa no seu melhor e no seu pior, afinal, é uma tentativa vã de recuperar anos em algumas semanas.
Mas a relação com a cidade nunca se repete. E raramente corresponde às expectativas. Dessa vez, por exemplo, esperava alguma espécie de chamado, um sentimento de encaixe na paisagem. Mas não foi o que aconteceu.
Os interstícios entre os encontros e as tarefas foram dolorosos, lembrava-me mais da cidade que amo e decidi abandonar do que daquela que achei que visitaria. Não houve incidentes, supresas – simplesmente um desacordo entre o que sou neste exato momento (e isto pode bem mudar) e o que ela poderia me proporcionar. Fiquei a me imaginar ali, sem a natureza ao alcance da mão, pulando as cascatas que se formam nas sarjetas e os buracos nas calçadas íngremes, sacolejando em ônibus altos que só são confortáveis para os mais jovens e saudáveis, vivendo numa sociedade quase semi-escravocrata, em que as pessoas falam paradoxal e constantemente de ingestão de calorias e silhuetas perfeitas; assistindo à televisão aberta que, salvo um único canal, só oferece alienação após alienação e violência e fascismo corporal; tendo de escutar o “fica com Deus” bem-intencionado, mas que tenho vontade de refutar e questionar. Entre tantas outras coisas.
Fiquei a me imaginar retomando a vida que era feliz em tantos aspectos, mas que me trouxe ao exílio porque me fazia sentir numa bolha e reclamar do que eu mesma não tinha a coragem de mudar.
A visita foi, enfim, boa. Mas, ironicamente, não via a hora de voltar para casa. E esta era a última coisa que eu imaginava.

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§ 4 Respostas para São Paulo

  • Isabel disse:

    Dani, afinal parece que já encontraste a tua casa. No sítio onde menos esperavas, mas a tua casa. Isso é bom, amiga. Aproveita bem o regresso a casa.
    Bjs

  • Daniela Pires disse:

    Bom, Isabel, isso é lá um tanto relativo. O lugar onde estou não é mesmo onde quero estar, mas há uma outra dimensão dentro dele que é a que habito, e não cabe em SP no momento. Bom, porque assim a volta não foi tão dolorosa 🙂
    Beijos,

  • horvallis disse:

    Feliz ano novo Dani !
    Visitei o teu flickr. Que fotografias mais lindas ! Você é artista. Adorei a orquidea “enjanelada”.
    Sobre o exílio, não posso falar, mas quando as pessoas e os lugares evolvem separadamente, após alguns anos fica mais e mais difícil reatar os fios…
    Beijocas

  • Daniela Pires disse:

    Obrigada, Horvallis! As fotos ainda não são o que quero que sejam, quero evoluir e melhorar.

    Beijos!

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