A traição das traduções

17 de março de 2011 § 3 Comentários

“A TRAIÇÃO DAS TRADUÇÕES,
por Hugo Xavier

O grande problema que o sector do livro tem de enfrentar todos os dias é a falta de leitores. A leitura continua a ser um prazer de uma minoria e um instrumento de trabalho de uma minoria apenas ligeiramente maior.

Noutro dia um oculista, enquanto fazia um ligeiro acerto nos meus óculos, dizia-me que todos os grandes míopes que lá tinha como clientes gostavam de ler. Isso explica-se por outro episódio engraçado. Quando era miúdo, e ao mudar de oftalmologista, de Espanha para Portugal, numa primeira consulta, ao referir que gostava de desporto, o dito oftalmologista suspirou e interpelou-me: «Até aposto que sei qual é o teu desporto preferido: É o basketball, não é?» Anuí. «Pois é», continuou, «todos os míopes adoram sempre os desafios de jogar com tudo o que envolva a maior dificuldade. Gostam de snooker, de bowling, de brincar com legos em vez de playmobils…» Contudo. aquilo de que queria falar hoje nada tem a ver com a teoria da leitura miópica. Quero falar de um programa grave no sector editorial hoje em dia: as traduções. Quero falar da enorme dificuldade de encontrar bons tradutores e dos motivos que estão por detrás disso.

É, de facto, cada vez mais complicado encontrar bons tradutores, literários e não só. E, curiosamente, o mercado oferece cada vez mais profissionais desta área. São milhares de jovens saídos de Faculdades de Letras, como aquela que frequentei, com cursos de especialização, com conhecimentos dos mecanismos e softwares de tradução. Muitos têm uma formação bem mais completa que alguns dos grandes tradutores da nossa praça, sabem e conhecem as técnicas de tradução dos mais diferentes tipos de texto, estudaram tratados de filosofia e teoria da tradução e tudo isso. Mas falta sempre algo.

Desde há uns anos que faço um teste de tradução com um texto de 5 páginas. É a entrada de um livro inglês. O ano passado, por exemplo, fiz 83 testes de tradução e, contudo, apenas 3 testes foram satisfatórios. Nem sequer bons ou excelentes.

A lista de problemas começa por algo que me preocupa muito nas novas gerações de hoje: uma total falta de empenho e brio. Os testes chegavam nos mais variados formatos informáticos, geralmente com uma péssima apresentação, com espaços entre parágrafos onde eles não tinham espaçamento, com erros de ortografia berrantes que provavam a não existência de um qualquer tipo de revisão ou, ao menos, de segunda leitura. Mas aqueles testes que passavam essa primeira barreira traziam outros problemas. Quase nenhum dos tradutores, apesar do teste incluir a referência ao título da obra e autor, se lembrou de fazer algum tipo de investigação sobre a dita. Se o tivessem feito, provavelmente teriam descoberto na primeira crítica de leitor da Amazon (por exemplo, ou do site da editora ou do do autor), que o livro narra um episódio da vida de um crítico de teatro e da sua gata. E não teriam tido problemas em compreender duas ou três referências do início do livro, em que tentaram incorporar no sentido do texto títulos de peças que apareciam camuflados sem itálicos no texto original. Muito menos teriam mudado o sexo à gata.

Os poucos que sobreviveram a estes problemas tinham o grande problema por resolver: a falta de sensibilidade. Essa falta de sensibilidade é fruto da situação de mercado: estes candidatos a tradutores fazem parte da maioria da população que não lê ou lê pouco. E, no entanto, querem singrar numa área que pressupõe a leitura. Os resultados são terríveis: traduções pejadas de calinadas, mau português, perda de sentido, perda de ambiguidade onde o texto literário a exige. Isto para já não referir que, quando não se é leitor assíduo e competente e se quer traduzir um texto com alguma carga literária, acha-se que se deve manter tão fiel quanto possível ao original e acaba-se por comprometer toda a necessidade de reinterpretação, que é um factor essencial da tradução. Já nem sequer falo aqui do total desconhecimento da língua de partida que resulta na perda ou tradução muitas vezes literal e desprovida de sentido de expressões idiomáticas, da falta de cultura geral que dá origam a erros ridículos de interpretação, ou da falta de informação sobre temas essenciais da obra a traduzir.

Devido à minha profissão e orientação da Cavalo de Ferro, raramente me sobra tempo para ler edições portuguesas (que estão numa pilha ao lado da minha cama, para um futuro mais descansado). Mas, quando o faço, sou constantemente surpreendido pelas traduções assombrosas que por aí pululam. Dou um exemplo: há pouco tempo e por sugestão da Maria Teresa Horta, que há uns anos tinha feito uma crítica ao livro, num intervalo de leituras, resolvi-me a ler uma obra de Fred Vargas, Vai e Não Voltes Tão Depressa, que se anunciava como um thriller literário de qualidade, publicado pela Dom Quixote. Já não vou falar da tradução do título (no original Pars vite et reviens tard), que poderia passar por opção do tradutor. Contudo, quando mergulhei na leitura, mal queria acreditar. Apesar de a minha formação ser em língua inglesa, sentia o francês em toda a tradução, mas o pior nem era isso. Era a quantidade monstruosa de erros de palmatória de português. Acreditem-me que não havia um só pronome reflexo na posição correcta (e mesmo os que não eram reflexos andavam a passear pela estrutura sintática nas posições mais estrombólicas). Não havia página sem erros gravíssimos de português. Pois bem, pouco tempo depois, falei com a Maria Teresa Horta e perguntei-lhe como tinha conseguido ler aquele texto. É que eu não conseguia desligar o meu motor crítico, como consigo em muitos textos, eram erros demais! E na ficha técnica estava o nome de uma revisora! A MTH disse-me que tinha visto os erros, mas que eram algo tão comum à maior parte dos livros que recebia para recensear que já não ligava, sobretudo porque não tinha espaço para passar à parte mais técnica da crítica.

Não quero que entendam esta crónica como uma crítica à classe dos tradutores ou à categoria dos «jovens tradutores», mas que estes defeitos estão presentes na grande maioria deles, estão. Felizmente há excepções.

A verdadinha é que as operações laser e as lentes de contacto têm afastado muito boa gente da leitura; leitores, editores, tradutores e revisores. Temos todos de olhar um bocado melhor para o que queremos fazer porque ainda somos responsáveis pela transmissão de importantes valores culturais e de forma muito clara, porque não são os smsesses, os jornais e revistas, as legendas ou as barras informativas na parte inferior do ecrã dos telejornais que continuarão a mostrar o que é o bom português – com ou sem acordo ortográfico. E há muitos leitores míopes e dos outros que dependem de nós, para já não referir muitos futuros tradutores.”

Texto de 2009 de Hugo Xavier, agora diretor editorial da Editora Babel, extraído do blog Booktailors.

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Japão

17 de março de 2011 § 4 Comentários

(© Daniela Pires, All Rights Reserved; © Daniela Pires, Todos os direitos reservados)

Este ano, bateu a urgência de ir ao Japão. Foi uma das minhas resoluções espontâneas – espontâneas porque não as faço – para 2011, e tenho testemunhas. Andei dizendo a todos que não gastaria com viagens pequenas a destinações de certa forma irrelevantes, e que, dada a efeméride que tenho para celebrar, o próximo destino tinha de ser o Japão. Cheguei a pesquisar os guias, ver o preço das passagens, toda a logística pré-viagem de que tanto gosto. Para aplacar esta saudade que sinto de um lugar que jamais visitei.
Porque pensar no Japão me traz a antecipação por alegrias serenas, prazeres estéticos, entre tantas outras coisas – uma jornada espiritual, e não no sentido deístico da expressão.
É claro que o meu discurso está imbuído de uma romantização que não corresponde à realidade integral daquele povo que, como qualquer outro, também tem rachaduras nos pilares da sua cultura; de um país onde há crime organizado e que é constantemente acusado de atrocidades ambientais, e todas as estas coisas sobre as quais ficamos sabendo nos noticiários. A verdade, talvez, seja que eu não queira ir ao Japão, mas ao meu Japão, mas que vá, de certa forma, encontrar ambos, e que eles irão se amlgamar. Pois é assim que amamos, apesar de tudo, não por platonismos.
Por enquanto, então, faz-se a pausa neste plano. Desde sexta-feira que eu sinto uma dor incômoda, que me fez chorar manso algumas vezes ao dia, quando penso nas pessoas, nos animais, em todos os que estão à deriva, famintos e feridos, num cenário de destruição, frio, hostil, envoltos nos vapores da morte, desconectados dos seus heróis. Na radiação, naqueles que estão, de macacões vedados, voluntariamente, arriscando-se a tentar evitar uma amplificação dessa tragédia. São tantos os clichés de um desastre, mas nem isso amortece o que sinto ou impede os lugares-comuns do meu discurso.
Falava disto com um amigo ontem, de como não me conformava com o pequeno apocalipse que aquela gente está enfrentando, e ele, num tom de brincadeira que empregamos quando não queremos pensar a fundo na dor, disse: “espere alguns dias e tudo volta ao normal.”
Não é bem assim, mas quando nos referimos aos japoneses, sabemos que é este o espírito: de resiliência, de construção, criação, da falta de autopiedade. Na fotografia que ilustra este post, tirada num passeio que fiz no sábado e que me fez pensar no Japão, há uma pequena crisália no galho da árvore que começa a florir. E eu penso que a reconstrução já começou, pois é inevitável, a única coisa a ser feita. É isto que nunca deixa de me assombrar, apesar de tudo.

Onde estou?

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