Estado de graça

7 de abril de 2013 § Deixe um comentário

Estado de graça
Desde o início, a leitura de Estado de Graça, publicado no Brasil pela Intrínseca, tem me dado um prazer absurdo, o livro é, como se costuma dizer aqui, um real page-turner, ou seja, difícil de largar enquanto tudo mais espera por você.
A narrativa, em terceira pessoa, se passa na Amazônia, e envolve a pesquisa de uma droga de fertilidade, pesadelos recorrentes, questões que somente o deslocamento espacial é (talvez) capaz de solucionar e, como de certa forma não poderia deixar de ser, uma tribo indígena (fictícia).
O que me atraiu num primeiro momento para a leitura foi mesmo a curiosidade pelo “olhar estrangeiro” sobre a Amazônia. O que não deixa de ser irônico, pois, para mim, paulistana que pouco viajou pelo Brasil e emigrou, a Amazônia brasileira (partes da história se passam em Manaus e a tribo em questão parece ser do Amazonas) é um território tão estrangeiro como qualquer outro que tecnicamente o seja. Talvez por ter enveredado pelos estudos culturais e de tradução, para mim a ideia de “nação” como princípio unificador de um povo seja, em princípio uma falácia. E, quando pensamos em um país tão grande e diverso quanto o Brasil, em que há variações culturais e idiomáticas, acho complicado definir o que é “ser brasileiro”. Mesmo assim, tenho a tendência de pensar na floresta como (parcialmente) “nossa” e um completo mistério.
Obviamente, a grande personagem do livro é a selva, ela e suas profundezas, também protagonistas de Coração das Trevas, em que fica difícil não pensar diante do livro de Ann Patchett. É o lugar e seu efeito enquanto exílio sobre os pesquisadores estrangeiros – com exceção da Dra. Budi, indonésia, para quem o ambiente hostil, quente e úmido “deve ser familiar” – que vai criando a dinâmica e as camadas da narrativa. Isso e, claro, as impressões de Marina Singh que, após desistir da viagem por sua missão estar teoricamente cumprida, após sentir que o retorno para casa se torna temporariamente inviável, resolve seguir o rio e a Dra. Swenson.
Tenho gostado muito do tom, sem paternalismos. E da escrita tão perfeita quanto deve ser aquela de uma história bem contada, interessante, sobre alteridades que, inesperadamente, iluminam opacidades internas.

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